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A AUTENTICIDADE COMO POSSÍVEL ABORDAGEM E MÉTODO TERAPÊUTICOS NA CONDUTA CLÍNICA PSICOLÓGICA.



Andréa Fray Franchini Bello

RESUMO

Objetivo: Formular hipóteses acerca da Autenticidade como método terapêutico e ciência psicológica humana, repensando-a no contexto clínico como meio de diagnosticar e tratar disfunções, e também potencializar o estado geral de saúde do paciente; Revisar o conceito de saúde e os fundamentos teórico-práticos na conduta terapêutica Cognitiva-Comportamental e Humanista, traçando paralelos etimológicos, científicos e filosóficos ao conceito de ‘autenticidade orgânica comportamental ’ e ‘matriz cognitiva”, essenciais à metodologia proposta à análise; Elucidar sobre a ciência envolvida na formação de um método científico; Elencar os pilares socioculturais envolvidos no desenvolvimento da atual prática de saúde psicológica e seu poder de influência nas metodologias terapêuticas; Abrir espaço para mais pesquisas sobre ‘a autenticidade orgânica comportamental’ para fundamentar o Método Terapêutico Autenticidade. Método: Por meio de revisão de artigos, matérias e livros-texto, dicionários comuns e etimológicos foram descritos fundamentos da TCC e amparados argumentos relativos à Autenticidade como método terapêutico. Conclusão: Autenticidade pode ser um método e ciência psicológica, o que evidencia-se em sua aprovação como tal, desde 2007, no Brasil e Rússia (Psicontologia); A autenticidade poderá, num futuro próximo, ganhar maior repercussão nas mais diversas linhas de estudo médico-psicológico e em aplicações terapêuticas, tendo em vista as novas demandas advindas da evolução sociocultural acerca do entendimento de saúde e o aumento da tecnologia médica para comprovar a existência da ‘autenticidade orgânica comportamental’, termo próprio deste artigo, que diz respeito à constituição intrínseca de corpo e mente, ou seja, de matéria física-orgânica e campo psíquico.

Palavras – chave: Autenticidade. Psicologia. Terapia Cognitivo-Comportamental. Conduta terapêutica. Método terapêutico. Autenticidade Orgânica.

1 INTRODUÇÃO

O presente estudo tem o objetivo geral de investigar, sob amparo da Psicologia Cognitivo-Comportamental, a Autenticidade como conceito, valor e método terapêutico. Visa reunir conhecimentos teóricos, práticos, científicos e filosóficos sobre a especificidade da cognição e do comportamento, evidenciando o que seria a autenticidade orgânica, termo próprio deste trabalho, e explorar, ainda, hipóteses para formação de um método-processo terapêutico que venha a utilizar a autenticidade no tratamento de transtornos físicos e mentais como meio de recuperação da saúde geral do indivíduo.

Este estudo intenciona ainda, favorecer a interação do terapeuta em sua conduta clínica, ampliando sua intervenção no tratamento de transtornos mentais, por meio de estímulo à ‘autenticidade orgânica’ para a recuperação dos aspectos cindidos da identidade e melhora no quadro de saúde geral do indivíduo, sendo a Autenticidade um meio e um fim no processo terapêutico.

Apresenta o indivíduo e o individual como matriz da ‘autenticidade orgânica comportamental’ e intenciona abrir caminho para demais pesquisas na área médica-psicológica, onde a ‘autenticidade orgânica’ possa vir a ser mais estudada e incluída na área da saúde humana como parte essencial no tratamento do indivíduo de maneira a cumprir seu objetivo como meio – método - e fim – abordagem.

O método de pesquisa é realizado por meio de levantamento bibliográfico e revisão de literatura de técnicas e fundamentos essenciais da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) e investigação de outras abordagens e métodos terapêuticos que já atuam, de alguma forma, no campo da autenticidade. Utiliza-se também de pesquisa etimológica para formar significados de difícil definição científica.

Este artigo parte da seguinte pergunta-tema: Como a Autenticidade poderia se tornar um método científico para amparar e facilitar a conduta do terapeuta na clínica psicológica e, ainda, auxiliar o paciente na recuperação de seu estado geral de saúde, tendo em vista a relação direta entre autenticidade e constituição corpo-mente?

2 DESENVOLVIMENTO

Iniciaremos o desenvolvimento do artigo a partir das definições conceituais e etimológicas dos subtemas apresentados abaixo que podem vir a fundamentar o trabalho terapêutico por meio do recurso Autenticidade.

3 AUTENTICIDADE. O QUE É?

Segundo o dicionário da língua portuguesa, a palavra autenticidade significa característica, particularidade ou estado do que é autêntico, ou seja, a natureza daquilo que é real ou verdadeiro; estado do que é genuíno; em que há pertinência; que possui legitimidade; que é adequado. Particularidade do que se pode confiar; que se encontra em conformidade com a lei; legitimidade. Autenticidade é sinônimo de veracidade, verdade, identidade. Consiste na certeza absoluta da veracidade ou originalidade de algo sendo esta obtida através de análises feitas no objeto em questão. Quando algo tem autenticidade significa que é autêntico, ou seja, não passou por processos de mutações ou reproduções indevidas. A autenticidade é a natureza daquilo que é real e genuíno.

Etimologicamente a palavra autenticidade vem do grego ἀυτὀς ἐν τἰθημι ἄγω, e significa ‘eu me ponho igual à ação que sou’. Ou seja, algo é autêntico quando se demonstra por como o ser se presencia em antecipação a qualquer configurado racional ou lógico, o que traduz o conceito em si de natureza, ou seja, elementaridade formal de executar o cumprimento da própria posição virtual como indivíduo. Autêntico significa: ser igual a como o projeto individual prevê.

Assim, o indivíduo autêntico é aquele que age em acordo harmônico para com sua natureza psicológica, filosófica, natural, portanto, existencial; Se apresentaria tal qual o que faz sentido a ele, e tão somente desta maneira, sem desviar-se por condutas esperadas socialmente ou por traumas vivenciados em esfera psíquica, mas fazendo-se ser, por via desta comunicação legítima do ser-estar, sem desfazer-se nela.

O signo é autêntico quando se configura igual à coisa. Assim, o ser autêntico teria a capacidade de desenvolver-se segundo a própria e intrínseca virtualidade e de acordo com uma possível matriz essencial.

Mario Sergio Cortela, filósofo, professor e pesquisador brasileiro diz que a autenticidade é um valor ético a ser partilhado, ensinado e praticado, principalmente como recurso atrelado à formação de um indivíduo. Para ele, o indivíduo autêntico é aquele que coincide com ele mesmo e pratica o que pensa.

4 O QUE É COGNIÇÃO E COMPORTAMENTO SEGUNDO A ABORDAGEM DA PSICOLOGIA COGNITIVO E COMPORTAMENTAL

A cognição e o comportamento são as bases estruturais da abordagem psicoterapêutica Cognitiva-Comportamental, uma das abordagens mais investigadas empiricamente e com mais evidências científicas de eficácia.

Desenvolvida por Aaron Beck no final dos anos 1950, a TCC enfatiza a importância dos processos cognitivos na compreensão dos comportamentos de cada indivíduo e no tratamento de suas expressões disfuncionais.

O princípio básico da terapia cognitiva, segundo Knapp & Beck (2008, p.04), é a cognição ser a maneira como os indivíduos percebem e processam a realidade, onde esta influenciará a maneira como eles se sentem e se comportam.

Cognição é, então, a estrutura e meio de processamento de informações realizada por cada pessoa de acordo com sua individualidade fisiológica, histórico de vida e crenças. Este complexo cognitivo é o responsável por construir esquemas mentais que geram pensamentos e respostas orgânicas automáticas do indivíduo ao meio em função de eventos disparadores de tais esquemas. É um ciclo repetitivo que se retroalimenta. É importante citar, que as respostas orgânicas podem ser funcionais ou disfuncionais, ou seja, contribuem ou não eficientemente para o desenvolvimento do indivíduo consigo e em sociedade.

Quando as respostas orgânicas são disfuncionais, estão por ‘’obedecer’’ a orientações cognitivas estruturadas também disfuncionalmente, ou seja, em função de orientações que desviam o ser dele mesmo, desestruturando-o em sua autenticidade e, por consequência, retirando-o de sua funcionalidade comportamental. Podemos citar, por exemplo, um indivíduo que passa a comportar-se totalmente diferente ao cindir sua identidade para defender-se de uma ameaça factual e emocional: desamparo materno, bullyng, risco de morte, discussões violentas com cônjuge – e, começa a fumar, o que detesta e repreende, mas utiliza como resposta fazendo uso deste comportamento para aliviar uma possível assimilação de impotência sobre as situações. Neste exemplo, o indivíduo demonstra resposta orgânica em função de defesa psíquica, diferente das que teria, se tivesse educação emocional para fazer uso da consciência acerca do processo matricial, para firmar-se em sua autenticidade e usar o quantum de recursos inerente à ela mesma.

Portanto, um trabalho terapêutico que pudesse orientá-lo ‘ao si mesmo’, estimulando-o a reintegrar-se via esta autenticidade primária, reforçaria o indivíduo à uma escolha assimilativa mais adequada e a um comportamento funcional possível, já que é recurso de sua própria natureza é mais saudável como reação aos eventos.

Segundo este ponto de vista da Autenticidade, salientamos que o indivíduo ao agir disfuncionalmente, estaria se desfazendo em traumas, ao invés de responder organicamente de acordo com sua realidade matricial, àquela que definimos aqui, no item acima, como a que constitui o ser autêntico, ou seja, aquela realidade anterior aos impactos sociais traumáticos. Por isto, faz-se tão importante este estudo para a área psicológica.

Sobre isto Carvalho S. (2014) explica: “O princípio básico da terapia cognitiva pode ser resumido da seguinte forma: as respostas emocionais e comportamentais, bem como a nossa motivação, não são influenciadas diretamente por situações, mas pela forma como processamos essas situações. Por outras palavras, pelas interpretações que fazemos dessas situações ou pelo significado que lhes atribuímos. As interpretações, representações ou atribuições de significado, por sua vez, se refletem em pensamentos automáticos. Estes pensamentos automáticos, pré-conscientes, refletem-se na ativação de estruturas básicas inconscientes: os esquemas e as crenças”.

De acordo com estas hipóteses fundamentadas em teorias, podemos então, explicar o comportamento como uma resultante cognitiva, ou seja um aglomerado de dados psíquicos e fisiológicos expressos em ação, como também a resultante de um complexo cognitivo que pode estar mais ou menos estruturado na propriedade única no indivíduo – matriz cognitiva – e ser influenciado e modelado, de acordo com a adaptação global da ‘autenticidade orgânica’ ao meio ambiental e sociocultural.

Na sistematização do Diagrama de Conceitualização Cognitiva (KNEPP & BECK, 2008 p.06) é possível mensurar a natureza assimilativa humana e sua expressão comportamental no que concerne às situações derivadas da adaptação ao meio. O diagrama abaixo serve para avaliar o passo a passo cognitivo-comportamental, utilizando-se de crenças nucleares, pressupostos, regras e estratégias compensatórias utilizadas pelo indivíduo.

Figura 01: Diagrama de Conceitualização Cognitiva proposto por Judith Beck (1997).

Dados Relevantes da Infância Que experiências colaboraram para o desenvolvimento e manutenção da crença central? Crença Central Qual é a crença mais central sobre si mesmo?

Crença Condicional Que suposição positiva o ajudou a lidar com a crença central? Qual é a contraparte negativa para essa suposição?

Estratégias Comportamentais Que comportamentos o ajudam a lidar com a crença?

Situação 1 Situação 2 Situação 3 Qual(is) foi(ram) a(as) situação(ões) problemáticas?

Pensamentos Automáticos O que passou por sua cabeça?

Significado Significado Significado O que o pensamento significou para você?

Emoção Emoção Emoção Que emoção esteve associada a este pensamento?

Comportamento Comportamento Comportamento O que o cliente fez então?

Fonte: Beck (1997)

5 O QUE É IDENTIDADE?

O conceito de identidade é ainda muito investigado em estudos científicos. No entanto, a consagrada definição de Erikson, somada à etimologia da palavra, nos direcionará a um significado mais próximo.

Em 1968, Erickson significou a identidade como ‘um algo integrado’, em que a dimensão biológica, a vivência pessoal das experiências e o meio cultural dão sentido aos percursos do indivíduo.

Etimologicamente, a identidade é conceituada como o desenvolvimento daquilo que se é, ou seja, o desenvolvimento do caráter do que é único.

Neste estudo definimos identidade como sendo uma construção dinâmica da unidade da consciência de si.

6 O QUE SERIA UM PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO E COMO ELE SE DÁ NA ABORDAGEM COGNITIVA?

Individuação é um termo utilizado na linha da Psicologia Analítica Junguiana que estrutura unidade, diz respeito ao tornar-se um. Na abordagem Cognitiva- Comportamental não é utilizado, pois nesta, o foco terapêutico está na identificação dos padrões de comportamento, pensamentos, crenças e hábitos do sujeito em análise, visando captar no momento presente a origem de seus problemas para, então, transformar suas percepções disfuncionais, em funcionais.

No entanto, chamamos atenção para o fato de o terapeuta cognitivo-comportamental ‘esbarrar’ no que chamamos de individuação ou matriz, ao ressignificar sentidos disfuncionais do sujeito e conduzí-lo tecnicamente à comportamentos funcionais e assimilações mais positivas da realidade (interna e externa), ou seja, o terapeuta, de acordo com este pensamento, quando aciona os mecanismos perceptivos do paciente com o objetivo de transformar a sua cognição e comportamento, estaria reconduzindo o indivíduo à sua consciência primária e primeira, ou ainda, matricial, único ‘locus psíquico’ onde é possível ‘reassimilar’, recriar a percepção e, em consequência, a ação – realidade matricial e autenticidade orgânica comportamental.

Chamamos especial atenção para o parágrafo acima, pois um dos intentos complementares neste estudo é a observação deste ‘locus psíquico’ onde é realizada a assimilação original, ou seja, aquele que monta a própria aparelhagem da cognição, aquele que existe e existiu no sujeito antes da situação problemática ou sintoma. Queremos poder levantar material e indícios sobre àquela ‘fonte cognitiva’ que promove a libertação e a desconexão das ‘más’ assimilações, tão importantes para o trabalho terapêutico.

Podemos dizer que, indiretamente, a TCC por meio da resolução de histórico situacional, crenças e padrões promove um processo de acesso, reforço e estímulo - bases da abordagem TCC - da natureza associativa própria e única de cada sujeito ao libertá-lo dos “desvios” associativos promovidos e expressos por eventos externos e internos.

7 CONCEITO FUNDAMENTAIS DA TCC – REFORÇO, PUNIÇÃO, ESTÍMULO E RESPOSTA

Ao falarmos em autenticidade no processo terapêutico como meio de resgate de características basais do indivíduo, faz-se essencial a retomada, mesmo que breve, de conceitos fundamentais da abordagem cognitiva - comportamental, pois, o terapeuta, a partir da visão que este artigo aponta, poderá as utilizar não só para tratar os transtornos, mas para estimular a natureza individual e reforçar os comportamentos autênticos no e do assistido.

Sobre comportamento, estímulo e resposta, Skinner diz que o comportamento é a interação entre um organismo, fisiologicamente constituído como um equipamento anatomo-fisiológico, e o seu mundo, histórico e imediato. (...) Definimos comportamento como a relação entre estímulo e resposta.

Estímulo é uma parte ou mudança em uma parte do ambiente; resposta é uma mudança no organismo.

Reforçamento é um processo no qual um comportamento é fortalecido pela consequência imediata que seguramente segue à sua ocorrência. (MILTENBERG, 2001). No caso do reforço positivo, o indivíduo receberá uma consequência gratificante e prazerosa, o que chamamos de recompensa. No caso de reforço negativo, a consequência gratificante se dá pela eliminação de algo desagradável ao indivíduo, como estímulo a prática do comportamento desejado.

Punição é a ocorrência induzida de algo indesejável como resultado de um comportamento que se quer enfraquecer por ser disfuncional.

Como já comentado, estas ferramentas são utilizadas atualmente pelo terapeuta Cognitivo-Comportamental para auxiliar o paciente na retomada ou na promoção de comportamentos mais colaborativos consigo mesmo, ajustando o organismo físico, mental e emocional em função de comportamentos também mais adequados com a sociedade, meio e cultura em que interage, mas não necessariamente utilizadas para a promoção do bem estar geral ou à regulação da saúde integral do paciente, ao que este trabalho visa atentar e trazer um novo olhar, propondo uma condução que valide recursos também para a promoção de saúde.

8 O CONCEITO DE SAÚDE E COMO A ASSIMILAÇÃO DE IDENTIDADE A AFETA.

O movimento de inserção do psicólogo em instituições de Saúde Pública foi se construindo ao longo de três décadas, tendo início na década de 1970, período em que esse profissional assumia um papel secundário no contexto da saúde. Posteriormente, nas décadas de 1980 e 1990, respectivamente, com a extensão dos serviços de saúde mental para a rede básica e com a implantação do Sistema Único de Saúde - SUS – (Brasil), regido pelos princípios da universalidade do acesso, integralidade da atenção e equidade, o psicólogo passa a ser incluído nas equipes de saúde, assumindo um papel significativo na compreensão do processo saúde-doença (SPINK, 2009).

Bernard Rangé, psicólogo clínico e doutor em psicologia pela UFRJ, relata que a TCC atuava visando minimizar sintomas. Adotando mais a disfunção e não os aspectos saudáveis das pessoas, deixando de reforça-lo, deixando também ações preventivas de fora do hall de atuação do terapeuta.

Em 1947 (época que se precede à formalização da TCC como ciência psicológica), a OMS (Organização Mundial da Saúde), definiu saúde como sendo não apenas a ausência de doença, mas a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social”.

Atualmente, no ano de 2006, a OMS aliou à saúde o termo ‘’Qualidade de Vida” que é a percepção do indivíduo de sua inserção na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”.

A evolução histórica no cenário mundial a respeito do entendimento de saúde, contribuiu com a ciência tanto no desenvolvimento de pesquisas que estudassem a influência dos processos mentais e psíquicos na resultante orgânica e vice-e-versa, como para a geração de novas correntes psicológicas, tais quais a psicologia hospitalar e a neuropsicologia, que permitiram a maior intervenção dos profissionais da área psicológica na área da saúde.

Assim, segundo Leite (2004), se deu com a Terapia Comportamental, que adequando-se ao contexto sociocultural atual, voltou-se à Qualidade de Vida e é, atualmente, também um instrumento da Medicina Comportamental atuando em duas frentes: Eliminar/Minimizar e Potencializar.

Ainda na correlação direta entre saúde física e psicológica, citamos como exemplo, a evidência científica comprobatória do que, neste trabalho, chamamos de ‘autenticidade orgânica’. O estudo de Barbosa; Moraes, e Ventura (2018). revela a interferência da espessura do córtex cingulado2 na capacidade de um indivíduo receber tratamentos psicoterápicos para a ansiedade. Ou seja, com este parâmetro provamos a correlação entre estruturação física corporal e condição de assimilação cognitiva para modificar uma resultante comportamental, explicitando a autenticidade orgânica comportamental e de certa forma também, a individualidade.

Claro que quando falamos em uma estrutura orgânica, suas origens e formações, adentramos no campo filosófico abrindo discussões conceituais típicas como ‘o que ocorre primeiro, o ovo ou a galinha’. Quem surgiu primeiro? O que constitui o que e quem constitui quem? Neste caso, por exemplo, discutiríamos como se deu a formação do córtex singulado? Ou se é a constituição física que dita a resultante comportamental humana? Ou se a componente matricial cognitiva-comportamental é quem constituiu a matéria neste específico formato?

Enfim, o caso é que com este estudo localizamos um ponto de partida concreto para mais pesquisas sobre Autenticidade e também métodos de tratamento a partir da consideração de uma autenticidade orgânica, onde há uma matriz diferencial e específica entre indivíduos.

Ressaltamos, ainda como curiosidade e dado, o fato de ser o córtex cingulado uma área também responsável pelo controle hormonal, com atuação nas respostas assimilativas do indivíduo. Este tema é também objeto de estudo em matéria Neurocientífica.



9 ABORDAGENS TERAPÊUTICAS QUE JÁ ATUAM A PARTIR DA AUTENTICIDADE

Na ciência recente há a Ontopsicologia, que trabalha com foco na autenticidade. Foi aprovada como abordagem e método psicológico em 2007 para ser ministrado no Brasil pela universidade AMF, no Rio Grande do Sul, que oferece formação em graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado.

Este campo integra o estudo da Ontologia, área da filosofia que considera o ser em si mesmo, na sua essência. Etimologicamente a Ontologia (do grego ontos "ente" e logoi, "ciência do ser") é a parte da metafísica que trata da natureza, realidade e existência dos entes.

Arno Engelmann, do Instituto de Psicologia da USP, apresenta um artigo abrangendo autenticidade no método científico a partir da psicologia da Gestalt, que inclui a autenticidade como uma consciência única e não mediada por nada.

Em artigo, Arno Esselmann expressa duas ocorrências autênticas que se encontram no fundo de qualquer estudo moderno relativo à consciência: (1) o avanço incontestável das ciências empíricas nos últimos quatrocentos anos e (2) o uno e momentâneo da consciência. Descreve o momentâneo da consciência, como consciência-imediata e completa.

[...] Para cada indivíduo existe apenas uma consciência desse tipo, mesmo que subdividida. As outras pessoas evidentemente apresentam também uma consciência. Entretanto essas consciências de outras pessoas são de um tipo diferente da primeira consciência individual, a consciência imediata. [...]Demos a significação de "imediato". O contrário de" imediato" é o que se denomina de "mediato". É aquilo" que está em relação com outra(s) pessoa(s) ou coisa(s) por meio de uma terceira." (FERREIRA, 1986, p.1109)

E, continua, [...] "imediato" é um adjetivo cujo significado mais empregado é algo "que não tem nada de permeio" (FERREIRA, 1986, p.919), como diz o dicionário do Aurélio. É a visão que a pessoa tem, é a audição que a pessoa tem, é o feedback da tensão no rosto da pessoa, é o temor que envolve a pessoa, é a lembrança da maneira com que a pessoa acordou no dia anterior, é o nome dos pais que a pessoa precisa para preencher um documento, é a maneira como a pessoa planeja o próximo fim de semana, é como a pessoa verifica se a conta a pagar recebida por um negociante está correta, é a procura de uma saída num jogo de quebra-cabeça, é o cálculo feito pela pessoa da raiz quadrada de dezoito, é a pessoa falar num tom zangado a uma criança que sujou um tapete. Tudo isso acontece com a pessoa imediatamente. É o contrário, por exemplo, de acontecimentos que a pessoa chega a saber unicamente lendo o jornal.

Na abordagem Cognitivo-Comportamental não encontramos o estudo da Autenticidade como meta para o tratamento do indivíduo, e sim, conforme citado no artigo de André Luiz Moraes Ramos, como o fator essencial na relação terapeuta – cliente, visando o desenvolver mais empático e sadio do processo.

Na TCC, a aceitação deve manifestar-se através de um autêntico senso de otimismo, com crença na resiliência e no potencial de crescimento do cliente. Deste modo, as emoções, os pensamentos e os comportamentos negativos serão reconhecidos como tal, mas o terapeuta está tentando encontrar nos pacientes os pontos fortes que o ajudarão a enfrentar melhor a vida (WRIGHT, BASCO e THASE, 2008).

Nota-se que quanto mais autêntico forem os sentimentos do terapeuta perante o paciente, maior a possibilidade de aceitação incondicional do cliente, o que viabiliza emoções próprias e elaboradas para acolhida dos processos de transferência e contratransferência, por exemplo. Assim, na TCC a autenticidade seria encarada como uma competência do terapeuta (Sâmid Danielle Costa de Oliveira Alves).

10 O QUE É MÉTODO CIENTÍFICO E COMO FORMULAR UM MÉTODO TERAPÊUTICO?

O método científico pode ser definido como um conjunto de regras básicas para realizar uma experiência, a fim de produzir um novo conhecimento, bem como corrigir e integrar conhecimentos pré-existentes. (VIANNA, 2001).


Figura 2. Etapas para formular um método científico.

Fonte: Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Invariavelmente, a formulação de um método, sendo ele terapêutico ou não, parte da observação de uma demanda ou de um problema a ser resolvido. Todos os meios para este desenvolvimento contam com pressupostos científicos na busca por respostas, as chamadas hipóteses, as quais devem, num momento posterior, serem experimentadas (testes) para prover outras análises derivativas e conclusões mais assertivas, as quais servirão ao direcionamento das demais decisões e condutas.

Um método psicológico deve ser formulado a partir da observação de necessidades específicas das pessoas em seu desenvolvimento. A terapia cognitiva foi desenvolvida por Aaron T. Beck em 1921, na Universidade da Pensilvânia, no início da década de 60, como uma psicoterapia breve, estruturada e orientada para o presente, foi direcionada ao tratamento de pacientes com depressão, a resolver os problemas atuais e a modificar os pensamentos e os comportamentos disfuncionais destes sujeitos. Porém, ao longo dos anos, foi adaptada para o tratamento dos mais diversos transtornos psicológicos, demonstrando grande eficácia em estudos empíricos realizados com uma ampla gama de perfis populacionais (Beck, 1995/1997).

Já a terapia comportamental, por exemplo, originou—se na década de 1940, inspirada pelos estudos da Análise Experimental do Comportamento e de Burrhus Frederic Skinner. O livro deste autor, no ano de 1938, O Comportamento dos Organismos descreveu observações essenciais sob o ponto de vista analítico-comportamental e a sua obra, A Ciência e Comportamento Humano, publicado em 1953 é considerada um manual básico da sua teoria-aplicada. (BARBOSA, 2014).

Os exemplos acima demostram a criação de um método duradouro, que partiu de observação específica sobre o comportamento humano e também evidencia a evolução da pesquisa científica em sua adequação, tanto devido às consequências de suas experiências aplicadas e eficiência quanto por sua adequação às diferentes demandas socioculturais.

11 CONCLUSÃO

A Autenticidade poderá vir a ser um método psicológico para o resgate e reforçamento da individualidade. Um método para tratamento de distúrbios de ansiedade, demais transtornos mentais e também para a potencialização da saúde.

A AUTENTICIDADE, como método, é o ponto de partida e objetivo final em um tratamento psíquico.

A Autenticidade mostra-se com potencial de ser incorporada à diversas outras abordagens psicológicas.

A abordagem Cognitivo-Comportamental, mesmo que voltando-se ao bem estar e qualidade de vida e não apenas aos transtornos, demonstrou não possuir intervenções para potencialização da autenticidade do paciente/cliente; A TCC utiliza autenticidade apenas como competência do terapeuta para uma condução clínica mais empática do processo.

A terapia cognitivo-comportamental faz relação direta entre a saúde física e mental do indivíduo. A TCC poderá vir a ser base metodológica para o método psicológico da Autenticidade, promovendo estímulo e reforçamento da autenticidade orgânica comportamental de cada sujeito, ao auxiliá-lo na libertação dos traumas vividos (“desvios associativos”) e na efetivação do comportamento autêntico no dia-a-dia de seu cliente.

Evidenciou-se a correlação da estrutura física-orgânica – formação e tamanho das áreas cerebrais- e a sua influência direta no comportamento humano, proporcionando um entendimento concreto sobre Autenticidade e contribuindo para a formação do termo ‘Autenticidade Orgânica Comportamental’, desenvolvido neste artigo.

A autenticidade orgânica pode ser comprovada em estudos como o de Barbosa et, e significa estrutura primária, fonte original própria da constituição e emanação da vida em um único indivíduo, comprovando o ser humano como um todo integrado em si mesmo, onde saúde e qualidade de vida atuam como reguladores desse organismo.

A Autenticidade e a Autenticidade Orgânica comportamental podem ser meios também de diagnóstico de pacientes em processos terapêuticos.

O desenvolvimento de uma linha psicológica baseada na Autenticidade é possível, tal qual demonstrado na recente ciência da Psiontologia (2007);

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